
E lá vamos nós falar sobre o trabalho dos hermanos novamente. Na minha opinião, e de muitos, a publicidade argentina está voltando com força total aos seus dias de glória, quando caras como Ramiro Agulla e Carlos Baccetti, da grande Agulla & Baccetti, talvez a maior (não em tamanho, mas em qualidade criativa) agência argentina de todos os tempos e Fernando Vega Olmos, da não menos brilhante Vega Olmos Ponce, entre outros, ajudaram a dar um novo gás para a publicidade mundial. Eu acho essa volta muito boa porque, ao invés de torcer o nariz, arregaço as mangas para produzir um trabalho melhor a cada dia. Por que falar tudo isso? Porque Que vuelvan los Lentos é a típica junção, muito bem sucedida, aliás, de non-sense com o que podemos chamar de “publicidade argentina”. O mote é o seguinte: a campanha pede a volta das músicas lentas nas nossas vidas, porque com elas tudo fica mais simples. Até aí tudo bem, só que quando você souber que quem assina é a marca de salgadinhos Doritos, você vai achar que parece meio non-sense demais. O problema é que os caras amarraram tudo de maneira tão natural e integrada que não tem como não achar legal e entrar na onda. Tanto é que a campanha é um sucesso na Argentina, tendo se transformado em algo que chamaram de “Brand Hijacking”: a mobilização do público e de outros meios foi tão grande que consideram um “seqüestro” de idéia, um caso em que o consumidor toma o controle.
A “causa” criada pela Doritos quer mostrar que a nossa vida era mais simples quando tínhamos as festas com músicas lentas, em que os homens conseguiam conversar de maneira adequada com as mulheres. Deixando a mídia de lado, eles organizaram em Buenos Aires diversas festas em casas noturnas e noites dedicadas inteiramente às músicas lentas. Uma dessas festas, segundo noticiou o jornal La Nacion, reuniu cerca de 4 mil pessoas (foto abaixo). Os filmes da campanha mostram diversas situações muito divertidas em que as músicas lentas facilitam nossas vidas, embalados pela clássica “I Wanna Know What Love Is” do Foreigner. Tem ainda um hotsite que faz um apelo pela volta das músicas lentas, dicas do que falar quando se está dançando pertinho, além de pedir a contribuição de fotos e vídeos dos visitantes. Criaram também um blog, que mostra cada passo da iniciativa, com links para diversos grupos no Facebook, álbum de fotos no Flickr, incentivando as pessoas a pedirem as músicas lentas nas rádios locais, entre outras ações integradas.
Lendo este post e vendo os anúncios e os vídeos, você pode se perguntar: e onde está o “link com o produto?”. Eu acho que, independente da idéia ter ou não o link, se a campanha é boa o suficiente para ser passada adiante e comentada por todos, sendo que a marca Doritos está sempre associada a tudo isso, ela cumpre a sua função. Afinal de contas eu prefiro mil vezes criar uma conexão emocional da marca com o seu público, sendo útil e relevante de alguma forma para ele, do que fazer o seguro e, em muitos casos ineficaz “comercial de marca”. Não podemos nunca esquecer de que primeiro a gente garante a platéia e depois faz o discurso. Ou, como já dizia o mestre David Ogilvy, “não se pode salvar almas numa igreja vazia”. Essa é a lição. Palmas para a BBDO Argentina, por ter criado a campanha, e para a Frito-Lay, por ter aprovado.

Pessoas reunidas em frente ao Planetário de Buenos Aires

Camisinhas simulando capas de discos

Festa de los Lentos em Mar del Plata


Anúncios impressos: “Todos somos iguais de perto.”
Assista abaixo ainda alguns dos comerciais da campanha.